Beija-flor coberto de pólen é registrado em Sorocaba e imagem viraliza nas redes sociais
03/01/2026
(Foto: Reprodução) O contato com o pólen é um processo natural e não está associado a nenhum tipo de desconforto para a ave
Felipe Andreucci
Um registro feito no Parque Campolim, em Sorocaba (SP), chamou a atenção nas redes sociais ao mostrar um beija-flor com a cabeça coberta de pólen. A imagem foi capturada pelo Felipe Andreucci, fotógrafo da natureza que acompanha aves na região e compartilha seus registros nas redes sociais (@fotografandocomfelipe) desde 2021.
A fotografia mostra um beija-flor-de-peito-azul (Chionomesa lactea) logo após visitar uma flor de caliandra, planta conhecida por liberar grandes quantidades de pólen de forma estratégica durante a polinização.
Segundo o fotógrafo, ele só percebeu a quantidade incomum no rosto da ave depois, ao dar zoom no display da câmera. “Olhei e pensei: esse registro será um sucesso”, relembra.
Embora ele já tivesse observado outros beija-flores com pólen no rosto, nunca havia visto a ave com tamanha quantidade. Além do beija-flor-de-peito-azul, o fotógrafo também registrou um beija-flor-tesoura na mesma situação. Cambacicas também frequentavam o local, mas sempre com menos pólen visível. As aves que estavam por ali permaneceram bastante tempo no local.
Beija-flor coberto de pólen é registrado em Sorocaba e imagem viraliza nas redes sociais
Felipe Andreucci
A imagem do beija-flor coberto de pólen se tornou um dos conteúdos de maior alcance do perfil do fotógrafo, ao lado de outro registro de um pica-pau-verde-barrado com marcas que lembravam corações na plumagem.
Para Andreucci, a imagem teve um significado especial. “Foi o segundo grande registro depois do pica-pau-verde-barrado. Várias partes do mundo compartilharam. Considero que, a partir dali, meu Instagram começou a engajar de verdade”, afirma.
De acordo com a bióloga Nathália Diniz, especialista em beija-flores e responsável pela página de divulgação científica (@dinizbio) no Instagram, o acúmulo de pólen em partes específicas do corpo dessas aves é um fenômeno comum e esperado.
“Isso acontece quando eles visitam flores em busca de néctar, sua principal fonte de alimento. O pólen tende a se depositar principalmente no bico e na região da cabeça, podendo também alcançar a garganta e o peito, dependendo da posição das estruturas reprodutivas da flor”, explica.
Ao visitar várias flores ao longo do dia, o beija-flor transporta o pólen de uma flor para outra, realizando a polinização
Felipe Andreucci
Segundo a especialista, esse contato é acidental, mas fundamental para o equilíbrio dos ecossistemas. Ao visitar várias flores ao longo do dia, o beija-flor transporta o pólen de uma flor para outra, realizando a polinização.
A polinização ocorre quando, ao buscar o néctar, o beija-flor entra em contato com os estames das flores, que são as estruturas reprodutivas masculinas.
O pólen fica aderido ao corpo da ave e, ao visitar outra flor da mesma espécie, entra em contato com a estrutura reprodutiva feminina, permitindo a transferência do gameta masculino para o feminino. Nathália Diniz ressalta ainda que o pólen não causa prejuízo às aves.
“O contato com o pólen é um processo natural e, de modo geral, não está associado a nenhum tipo de desconforto. O pólen aderido às penas é removido naturalmente ao longo do dia, seja pelo voo, pela limpeza das penas ou pelo contato com a vegetação durante suas atividades”, afirma.
Os beija-flores se destacam por serem altamente adaptados à alimentação em flores, o que os torna polinizadores extremamente eficientes
Felipe Andreucci
Mais de 500 espécies de aves são conhecidas por visitar e polinizar flores na região Neotropical, segundo a especialista. Entre elas, os beija-flores se destacam por serem altamente adaptados à alimentação em flores, o que os torna polinizadores extremamente eficientes.
O formato do bico e o modo de alimentação favorecem o contato direto com as estruturas reprodutivas das plantas e a transferência de pólen entre diferentes flores.
A quantidade de pólen que se acumula no corpo das aves pode variar. Isso depende tanto da espécie da flor quanto do beija-flor envolvido.
A quantidade de pólen que se acumula no corpo das aves pode variar
Felipe Andreucci
Diferenças no posicionamento das estruturas reprodutivas das plantas, assim como no tamanho e no formato do bico das aves, influenciam diretamente quanto pólen acaba aderindo ao corpo durante cada visita.
“Um beija-flor coberto de pólen é um retrato muito bonito de como a natureza funciona de forma integrada, onde cada organismo tem um papel fundamental. A flor oferece alimento ao beija-flor e ele, sem intencionalidade, ajuda a planta a se reproduzir. É o resultado visível de milhões de anos de evolução e de relações delicadas que sustentam os ecossistemas. Tudo isso acontecendo diante dos nossos olhos”, conclui Diniz.
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