Campinas tem alta de 39% em matrículas de alunos superdotados e especialista destaca necessidade de atendimento adequado

  • 29/08/2026
(Foto: Reprodução)
Regiões de Campinas e Piracicaba aumentam matrículas de alunos superdotados As matrículas de estudantes com altas habilidades ou superdotação na educação básica cresceram 39,7% em Campinas (SP). Dados da Sinopse Estatística da Educação Básica, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostram que o número de alunos passou de 186 em 2024 para 260 em 2025. Em junho, foi sancionada a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação, que prevê medidas de identificação, acompanhamento e desenvolvimento desses alunos nas redes de ensino. Apesar do crescimento dos registros, especialistas afirmam que os números ainda estão longe de refletir a realidade. "Hoje, a gente considera superdotada a pessoa que tem um potencial elevado em alguma área. Pode ser na inteligência, mas também na criatividade, liderança, área acadêmica ou psicomotora", explica a psicóloga e pesquisadora Tatiana Nakano, especialista em neuropsicologia. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Campinas no WhatsApp Segundo ela, um dos principais desafios continua sendo a identificação desses estudantes. "A literatura mostra que de 3% a 5% da população tem superdotação. Se aplicarmos esse percentual aos estudantes brasileiros, deveríamos ter cerca de 2 milhões de alunos identificados. Hoje, temos aproximadamente 57 mil", afirma. Miguel, de 8 anos, morador de Campinas (SP), tem diagnóstico de superdotação e demonstra facilidade em áreas que despertam seu interesse, especialmente matemática Alexandre de Jesus/EPTV Sinais A pesquisadora destaca que crianças com altas habilidades costumam apresentar desenvolvimento acelerado em algumas áreas, vocabulário avançado, aprendizado rápido, curiosidade intensa e interesses aprofundados desde cedo. "Os pais geralmente percebem que a criança se desenvolve de um jeito diferente, muitas vezes mais cedo que as outras da mesma idade", diz. Foi justamente essa diferença que chamou a atenção da dona de casa Camila Ferreira Cabral quando o filho Miguel ainda era bebê. "Com um ano e quatro meses ele já montava o alfabeto com letras de EVA, de trás para frente, sem nem falar ainda. Conforme o tempo foi passando, as coisas só foram aumentando", lembra. Após avaliações com especialistas, Miguel recebeu o diagnóstico de superdotação aos 3 anos. "O primeiro sentimento foi um susto. Você pega o laudo e pensa: 'superdotado, e agora?'. A primeira coisa que fizemos foi ligar para várias escolas para entender qual delas tinha estrutura para atender uma criança com altas habilidades", conta a mãe. A busca, porém, se mostrou mais difícil do que a família imaginava. "Infelizmente, hoje não existe uma escola preparada para isso. O Miguel já está na terceira escola." Desafios além do conteúdo A psicóloga e pesquisadora Tatiana Nakano, especialista em neuropsicologia, destaca a necessidade de acompanhamento educacional adequado aos estudantes com altas habilidades e superdotação Reprodução/EPTV Atualmente com 8 anos, Miguel demonstra facilidade em áreas que despertam seu interesse, especialmente matemática. "Eu gosto de fazer contas, montar cubo mágico e brincar com coisas de números", conta. Na escola, a disciplina favorita é matemática. Questionado sobre o conteúdo das aulas, ele dá uma resposta que ajuda a ilustrar um dos desafios enfrentados por alunos com altas habilidades. "Por enquanto, tudo o que ela [professora] fala, eu já sei." Acompanhamento e estímulo Para Tatiana Nakano, esse é justamente um dos motivos pelos quais esses estudantes precisam de acompanhamento educacional adequado. "Eles têm necessidades educacionais diferenciadas. A escola precisa ser desafiadora. Quando a criança já está em um nível mais elevado e continua recebendo apenas conteúdos muito básicos, podem surgir problemas como desmotivação, isolamento social e até bullying", afirma. A especialista ressalta que cada caso exige avaliação individualizada e que as adaptações podem variar conforme o perfil do estudante. "O importante é entender as forças e fragilidades daquela criança para definir qual medida educacional faz mais sentido." Falta de compreensão Camila afirma que uma das maiores dificuldades enfrentadas pela família não está ligada ao desempenho acadêmico do filho, mas à maneira como a sociedade compreende a superdotação. "As pessoas acham que, por serem inteligentes, essas crianças não precisam de suporte. E aí mora o problema", afirma. Segundo ela, muitos alunos apresentam sensibilidades emocionais e comportamentais que costumam ser confundidas com falta de educação ou outros transtornos. "A sociedade acha que é tudo muito perfeito, mas não é. Nós temos muitas dificuldades. A maior delas é as pessoas entenderem o que é uma criança com altas habilidades." A mãe defende que a nova política nacional seja acompanhada de investimentos na formação das equipes escolares. "O ideal seria que todas as escolas tivessem profissionais capacitados para lidar com essas crianças. Hoje o Miguel está em uma escola que acolheu a gente e isso faz toda a diferença. Hoje meu filho é feliz na escola." Avanços e limitações da nova política Para Tatiana Nakano, a nova legislação representa um avanço ao dar mais visibilidade ao tema, mas ainda apresenta limitações. "A lei traz alguns avanços, mas não é ela sozinha que vai resolver o problema da identificação." Governo cria política nacional para alunos superdotados, mas veta triagem obrigatória nas escolas A pesquisadora cita como preocupação o veto presidencial aos dispositivos que previam uma identificação educacional mais ampla dos estudantes e destaca que a adesão de estados e municípios à política será voluntária. "Essas crianças continuam sendo, muitas vezes, invisíveis para a educação. Precisamos discutir melhor as formas de identificação e atendimento para que a legislação se transforme em prática." No caso de Miguel, o desejo da família é simples. "Ele é uma criança alegre, curiosa e carinhosa. O que a gente quer é que ele tenha a oportunidade de desenvolver todo o potencial dele, mas também seja compreendido como criança", resume Camila. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja todas as notícias da região no g1 Campinas

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/08/29/campinas-tem-alta-de-39percent-em-matriculas-de-alunos-superdotados-e-especialista-destaca-necessidade-de-atendimento-adequado.ghtml


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