Desigualdade e perda de aprendizagem: o que o Ideb diz sobre a educação pública de Campinas
15/08/2026
(Foto: Reprodução) Desigualdade e perda de aprendizagem: o que o Ideb diz sobre a educação de Campinas
O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2025 aponta um cenário de contrastes na educação pública de Campinas (SP), com desafios que incluem a perda de aprendizagem nos anos finais da educação básica e a distância entre os alunos mais vulneráveis e os demais
Além disso, enquanto os maiores índices se concentram nos primeiros anos da vida escolar, a rede de ensino enfrenta dificuldades para manter o desempenho ao longo da trajetória dos estudantes.
🔎 O Ideb é um indicador criado pelo Ministério da Educação que combina dois fatores: o desempenho dos estudantes nas provas do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), aplicadas em Língua Portuguesa e Matemática, e as taxas de aprovação escolar. O índice busca medir simultaneamente aprendizagem e fluxo escolar.
Nesta reportagem, você confere:
Anos iniciais concentram resultados melhores
Resultados pioram nos anos finais
Ensino médio mantém os menores índices
Impacto da pandemia na aprendizagem e na aprovação
Diferenças sociais
Entre os indicadores e a sala de aula
O que dizem as Secretarias de Educação de Campinas e de SP
Anos iniciais concentram resultados melhores
Nos anos iniciais do ensino fundamental, a rede estadual de Campinas registrou Ideb de 6,5 em 2025. Já a rede municipal alcançou 5,8.
Ao longo da série histórica, os indicadores apresentaram crescimento até 2019. Após a pandemia de Covid-19, houve queda nos resultados e, posteriormente, recuperação parcial.
Em 2025, os índices voltaram a se aproximar dos níveis observados antes da crise sanitária, especialmente na rede estadual.
Resultados pioram nos anos finais
Nos anos finais do ensino fundamental, os resultados são menores. O índice chegou a 5 na rede estadual, e a 4,9 na municipal.
De acordo com a Prefeitura de Campinas, a rede estadual reúne cerca de 80% das vagas do ensino fundamental.
Os dados mostram que os indicadores cresceram ao longo das últimas décadas, mas não voltaram a avançar após o pico registrado em 2021. Entre 2021 e 2025, o Ideb dos anos finais apresentou redução.
Ensino médio mantém os menores índices
O menor resultado entre as etapas avaliadas continua sendo o ensino médio. Em 2025, o Ideb da rede estadual de Campinas foi de 4,3. Não há escolas municipais nesta etapa.
Os dados mostram crescimento entre 2017 e 2021, seguido de estabilidade nos ciclos mais recentes.
Para a professora da Faculdade de Educação da Unicamp Cristiane Machado, uma série de fatores ajuda a explicar por que os indicadores tendem a ser maiores nos anos iniciais e menores nas etapas seguintes.
Segundo ela, além de os anos iniciais contarem com maior acompanhamento familiar e menor evasão escolar, a própria organização pedagógica muda ao longo da trajetória dos estudantes.
"Quando você chega nos anos finais, muda tudo. São vários professores, existe uma divisão forte das disciplinas e os estudantes já têm mais autonomia. Ao mesmo tempo, dificuldades que surgiram antes e não foram superadas tendem a se acumular", afirma.
Na avaliação de Cristiane Machado, os resultados mais recentes ainda carregam reflexos do período de fechamento das escolas.
Segundo ela, a trajetória dos indicadores sugere que os maiores impactos ocorreram nas avaliações realizadas logo após a pandemia, mas os dados também apontam recuperação gradual da aprendizagem nos ciclos posteriores.
"Tudo indica que esse período mais afetado pela pandemia já está sendo superado, embora os efeitos tenham aparecido de forma diferente entre as redes e etapas de ensino", diz.
A pesquisadora destaca ainda que a tendência de redução dos indicadores ao longo da escolarização não é exclusiva de Campinas e pode ser observada em outras redes do país.
Impacto da pandemia na aprendizagem e na aprovação
Criança segura um lápis enquanto faz lição de casa.
Reprodução/EPTV
Na avaliação de Cristiane Machado, os resultados mais recentes ainda carregam reflexos do período de fechamento das escolas.
Segundo ela, a trajetória dos indicadores sugere que os maiores impactos ocorreram nas avaliações realizadas logo após a pandemia, mas os dados também apontam recuperação gradual da aprendizagem nos ciclos posteriores.
"Tudo indica que esse período mais afetado pela pandemia já está sendo superado, embora os efeitos tenham aparecido de forma diferente entre as redes e etapas de ensino", diz.
Diferenças sociais
Dados do QEdu, portal que reúne índices de educação básica do país e é elaborado pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), apontam percentuais menores de aprendizagem adequada entre estudantes de baixo nível socioeconômico em comparação aos de nível socioeconômico mais alto.
As diferenças também aparecem entre estudantes pretos, pardos e indígenas e estudantes brancos e amarelos.
Dados do QEdu apontam percentuais menores de aprendizagem adequada entre estudantes de baixo nível socioeconômico em Campinas (SP).
Reprodução/QEdu
Para Cristiane Machado, os indicadores de desigualdade reforçam que parte das diferenças observadas nos resultados educacionais está ligada às condições socioeconômicas dos estudantes.
Segundo a pesquisadora, crianças e adolescentes que vivem em contextos mais vulneráveis costumam chegar à escola com menos acesso a bens culturais, materiais pedagógicos e condições favoráveis ao estudo, o que pode afetar a aprendizagem ao longo da trajetória escolar.
"Essas desigualdades são sociais, mas acabam se refletindo nas desigualdades de aprendizagem", afirma.
Ela defende que os resultados das avaliações sejam utilizados para orientar políticas direcionadas às escolas e territórios que enfrentam maiores dificuldades.
Entre os indicadores e a sala de aula
Professores ouvidos pelo g1 avaliam que os números não refletem as dificuldades observadas no cotidiano escolar. Segundo eles, parte dos estudantes chegam às séries mais avançadas com defasagens acumuladas em leitura, interpretação de texto e matemática, o que dificulta a progressão da aprendizagem ao longo dos anos.
Uma professora da rede estadual, que não quer ser identificada, relata que parte dos alunos ainda tem dificuldade para localizar informações em textos, fazer inferências e compreender enunciados.
Para ela, essas limitações acabam afetando também o desempenho em matemática, já que grande parte das atividades exige interpretação textual.
Já o professor José Edson de Souza, que atua na rede estadual desde 2011, afirma que a rotina escolar passou a ser marcada por plataformas digitais, atividades online e avaliações frequentes, que não refletem dificuldades que vão além da sala de aula.
Na avaliação dele, seria importante que estudantes tivessem um acompanhamento mais individualizado, com maior foco em consolidar aprendizado do que em cumprir tarefas.
Os dois docentes apontam que parte dos alunos enfrenta dificuldades como vulnerabilidade social e necessidades educacionais que exigiriam acompanhamento mais próximo.
Para eles, os indicadores são importantes para medir tendências gerais da educação, mas não conseguem capturar a complexidade das situações vividas diariamente nas escolas.
O que dizem as Secretarias de Educação de Campinas e de SP
➡ Em nota, a Secretaria de Educação de Campinas afirmou que tem monitorado os indicadores de aprendizagem e atribui parte dos desafios atuais aos impactos do período mais grave da pandemia. A pasta informou que vem adotando medidas para melhorar os resultados, como a criação de um comitê para acompanhar avaliações e orientar ações pedagógicas nas escolas, o reforço da formação de professores e a elaboração do novo Plano Municipal de Educação.
A secretaria também destacou investimentos em infraestrutura escolar e manutenção de políticas já existentes, além de ações voltadas à equidade, como programas de promoção da igualdade racial, combate ao racismo e à violência contra as mulheres, afirmando que continua desenvolvendo estratégias para elevar a aprendizagem e reduzir desigualdades educacionais na rede.
"A Secretaria de Educação de Campinas informa que o compromisso da atual gestão é fortalecer o ensino municipal e, neste contexto, monitora os principais indicadores sobre a qualidade do aprendizado, como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).
Novas medidas estão sendo implementadas de maneira gradativa com o objetivo de melhorar os resultados influenciados pelo período mais grave da pandemia.
Uma delas foi a criação de um comitê para atuar de forma contínua na análise das avaliações realizadas pelos alunos, incluindo as disciplinas de português e matemática. A partir disso, a equipe dialoga com as escolas para que novas atividades sejam desenvolvidas e aplicadas para reforçar os aprendizados necessários.
A secretaria tem reforçado também a formação dos professores com o objetivo de ampliar as estratégias de ensino dentro e fora das escolas.
A Educação iniciou na semana passada as discussões para elaborar o novo Plano Municipal de Educação (PME), que define diretrizes, objetivos, estratégias e metas para a próxima década (2027-2037). Entre os objetivos devem constar a erradicação do analfabetismo, a promoção da igualdade racial, de gênero, regional e da diversidade, e a qualificação do ensino. O plano é integrado às demais políticas e planos de desenvolvimento aplicados no Município.
A secretaria reafirma a continuidade de políticas que deram certo e se tornaram referência: oferta de manter zerada a fila das creches para crianças de até 3 anos; garantir a entrega, em dia e com qualidade, dos uniformes e kits de materiais; e ofertar alimentação escolar com qualidade nutricional. Além disso, segue investindo em melhorias para elevar o aproveitamento dos estudantes em sala de aula, como o início da instalação dos equipamentos de ar-condicionado nas escolas municipais de ensino fundamental (Emefs).
Em relação aos indicadores de equidade, vale destacar que Campinas instituiu, no ano passado, o Programa de Educação para as Relações Étnico-Raciais (ProErer) para promover atividades como formações, incluindo as iniciativas promovidas pelo Geledés - Instituto da Mulher Negra, e curadorias de materiais sobre o tema. O Município passou a contar com o Observatório Memória e Identidade, Promoção da Igualdade na Diversidade (MIPID) para fomentar as políticas públicas educacionais na área étnico-racial e produzir análises e propostas a partir de dados.
Além de avançar com o Protocolo Antirracismo, a secretaria está aplicando, neste ano, um plano pedagógico que reforça três temas sociais sob a perspectiva da equidade: combate à violência contra as mulheres, antirracismo e meio ambiente/emergências climáticas.
Entre as ações de destaque estão os debates nas escolas sobre igualdade de gênero, a participação no projeto Vozes pela Igualdade de Gênero, a ampliação da parceria com o coletivo Rotas Afro e abordagens sobre meio ambiente, que incluem, por exemplo, as visitas de alunos à Usina Verde e a instalação de estações meteorológicas nas escolas."
➡ A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo afirmou que acompanha continuamente os indicadores de aprendizagem e utiliza os resultados das avaliações para orientar estratégias pedagógicas e ações de recuperação. A pasta destacou que a rede estadual de Campinas avançou nos anos iniciais do ensino fundamental em 2025, enquanto os resultados dos anos finais e do ensino médio permaneceram estáveis ou apresentaram pequenas variações.
Segundo a secretaria, as ações para melhorar a aprendizagem e reduzir desigualdades incluem programas de recomposição das aprendizagens, ampliação do Projeto Professor Tutor, reforço em Língua Portuguesa e Matemática, acompanhamento da Prova Paulista e iniciativas voltadas ao apoio e desenvolvimento dos estudantes.
A Seduc também afirmou que trabalha para garantir o aprendizado de alunos de diferentes perfis sociais, econômicos e raciais, utilizando os dados das avaliações para direcionar estratégias de recuperação e suporte pedagógico.
"A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) acompanha continuamente os indicadores de aprendizagem e utiliza os resultados das avaliações para orientar estratégias pedagógicas e ações de recuperação em toda a rede.
No Ideb 2025, a rede estadual em Campinas apresentou avanço nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, com nota 6,5, ante 6,1 em 2023. O resultado acompanha o desempenho da rede estadual paulista, que alcançou 6,6 nessa etapa, seu melhor resultado histórico. Nos Anos Finais, a nota foi 5,0, ante 5,1 em 2023, e, no Ensino Médio, 4,3, mantendo o resultado anterior.
Os indicadores educacionais, incluindo aqueles considerados pelo Fundeb para a complementação-VAAR, subsidiam o acompanhamento das necessidades da rede e o planejamento das ações pedagógicas. Neste cenário, as intervenções da pasta seguem algumas premissas, tais como: melhorar a aprendizagem; diminuir as desigualdades; e promover uma cultura de excelência nas unidades de ensino.
Para fortalecer a aprendizagem nas duas etapas do Ensino Fundamental e no Ensino Médio, uma das principais frentes é a recomposição das aprendizagens, que conta, entre outras estratégias, com o Projeto Professor Tutor, ampliado de um projeto-piloto em 200 escolas para 2.800 unidades estaduais neste ano. A iniciativa atende estudantes com defasagens pedagógicas e oferece apoio direcionado às suas necessidades de aprendizagem. A estratégia é complementada pela ampliação da carga horária de Língua Portuguesa e Matemática, pelas aulas de Orientação de Estudos e pelo acompanhamento dos resultados da Prova Paulista.
Outras iniciativas da pasta incluem o programa Bolsa Estágio Ensino Médio (BEEM), o Aluno Monitor do BEEM, Provão Paulista, Prontos pro Mundo, além da Olimpíada de Matemática das Escolas Estaduais de São Paulo (Omasp) e a Olimpíada Interpreta SP (Olisp).
A rede estadual atende estudantes de diferentes perfis sociais, econômicos, raciais e culturais e trabalha para garantir o direito à aprendizagem de todos, sem distinção. Os resultados das avaliações orientam as equipes pedagógicas na identificação de necessidades e na definição de estratégias de recuperação e apoio, com foco na aprendizagem de todos os estudantes."
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