Dia do Feirante: de geração em geração, região de Campinas soma 10,7 mil negócios ligados às feiras

  • 25/08/2026
(Foto: Reprodução)
Barraca 'Dona Amélia' no ano de 1989, em Campinas Arquivo pessoal/Sérgio Nacazato Às 4h30 da manhã, enquanto boa parte da cidade de Campinas (SP) ainda dormia, Sérgio Nacazato chegava à feira para montar, pela primeira vez, a barraca de pastel da família. Era 1978, ele tinha 16 anos e, junto do pai e dos irmãos, começava uma rotina que se estenderia por quase cinco décadas. “Eu lembro como se fosse hoje, primeiro dia de feira. É inesquecível”, conta Sérgio, hoje com 64 anos. A história da família no comércio começou quando um amigo do pai de Sérgio decidiu vender uma barraca de pastel. O pai assumiu o negócio e levou os filhos para ajudar. No início, o trabalho era todo manual, feito por Sérgio, um irmão e uma irmã. “Era praticamente 20 horas por dia trabalhando. Mas meu irmão e eu encaramos [...] Para melhorar de vida, a gente tem que trabalhar”, lembra. A trajetória de Sérgio ajuda a mostrar uma atividade que segue presente em Campinas e em outras cidades da região. Um levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP), com dados da Receita Federal de julho de 2026, aponta 10.778 empresas formalizadas em atividades relacionadas às feiras livres nas 31 cidades da área de cobertura do g1 Campinas. No Dia do Feirante, celebrado nesta terça-feira (25), o g1 mostra como esse trabalho atravessa gerações e enfrenta mudanças nos hábitos de consumo. Agora no g1 De pai para filho e de tio para sobrinho A segunda-feira, único dia sem feira na rotina da família, era reservada para a limpeza dos equipamentos e o preparo da massa e do recheio. De madrugada, os pastéis eram montados para a venda na manhã seguinte. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Campinas no WhatsApp Hoje, a rotina é diferente. Máquinas e funcionários reduziram o esforço manual, e a empresa passou a atender quatro feiras noturnas e seis diurnas. Durante décadas, Sérgio dividiu o trabalho com o irmão, que morreu em 2022, durante a pandemia de Covid-19. Dois anos depois, o sobrinho assumiu a parte do pai na sociedade. Hoje, tio e sobrinho comandam o negócio iniciado pelo avô. A barraca leva o nome da mãe de Sérgio, Dona Amélia. Aos 94 anos, ela está aposentada e não frequenta mais as feiras. O pai do feirante morreu em 2008. “Os dois foram os guerreiros. Sem eles, não teria nada disso”, diz Sérgio. Os dois filhos de Sérgio, no entanto, seguiram outros caminhos profissionais. Um é economista e o outro, médico. Ambos moram na capital paulista. Mais do que um comércio A barraca Dona Amélia passa por bairros de Campinas como São Bernardo, Vila Teixeira, Taquaral, Swiss Park, Vila Industrial e Boa Vista. Segundo Sérgio, o contato frequente com os clientes cria relações que duram décadas. Ele diz que é comum receber café, bolo e até ofertas para usar o banheiro durante o expediente. “Você faz muita amizade, não só com os feirantes, mas com os clientes [...] Às vezes a amizade até continua depois. É uma coisa muito bacana”, diz. Ao mesmo tempo, Sérgio percebe uma queda no movimento das feiras. Ele atribui a mudança ao envelhecimento dos consumidores mais antigos e à concorrência com supermercados e aplicativos de mensagens. “Hoje está difícil. Antes o pessoal tinha uma outra visão de feira. Hoje a gente parece que chega até a estar atrapalhando”, desabafa. Após 48 anos de trabalho, Sérgio reduziu o ritmo. Aposentado, vai pessoalmente a apenas uma feira por semana e se dedica mais à administração do negócio. Apesar do desgaste físico acumulado ao longo dos anos, ele resume a importância da profissão para a própria vida. “A feira, para a gente, foi tudo”, resume. Barraca de pastel 'Dona Amélia' em Campinas Arquivo pessoal/Sérgio Nacazato Novos hábitos de consumo As mudanças percebidas por Sérgio também aparecem na análise de Daniela Cria, analista de negócios do Sebrae-SP. “As feiras têm um valor social e cultural que vai além da compra e venda de produtos, mas também enfrentam a concorrência dos supermercados e das novas formas de consumo, como aplicativos e compras pelo WhatsApp”, afirma. Para a analista, manter esse tipo de comércio atrativo passa por preservar características como proximidade e acolhimento e, ao mesmo tempo, adotar estratégias de gestão, divulgação, conveniência e relacionamento com o cliente. “A inovação não precisa substituir a tradição, mas pode ajudar a tornar as feiras mais competitivas e atrativas para novos consumidores”, diz. Daniela também lembra que a relação das famílias com as feiras foi construída ao longo de gerações. “Há gerações, ir à feira sempre foi considerado um passeio em família, principalmente, para as gerações anteriores. Nossos avós e pais iam muito, já que eram nas feiras que eram encontrados produtos mais frescos e uma variedade relevante, além do tradicional pastel com caldo de cana”, afirma. 10,7 mil negócios ligados às feiras na região O levantamento do Sebrae-SP identificou 10.778 empresas formalizadas em atividades relacionadas às feiras livres nas 31 cidades da área de cobertura do g1 Campinas. A pesquisa considera atividades de: comércio varejista de hortifrutigranjeiros, como frutas, legumes e verduras; comércio de outros produtos, como artesanato e utilidades; e alimentação ambulante, que inclui lanches e comida preparada na hora. Os números não correspondem, necessariamente, à quantidade de feirantes ou de bancas. Isso porque as mesmas atividades também podem ser exercidas fora das feiras livres, como no caso de food trucks. Campinas lidera o levantamento, com 3.447 empresas. São 2.017 microempreendedores individuais (MEIs), 1.176 microempresas (MEs) e 254 empresas de pequeno porte (EPPs). Na sequência aparecem: Americana (SP), com 863 empresas; Sumaré (SP), com 794; Hortolândia (SP), com 735; e Indaiatuba (SP), com 701. Segundo Daniela, a predominância de MEIs e microempresas ajuda a mostrar o perfil de quem atua nessas atividades. “As feiras são um espaço importante para pequenos empreendedores, muitos deles com negócios de menor porte e estrutura mais enxuta. Esse perfil reforça o papel das feiras na geração de trabalho e renda e no desenvolvimento de pequenos negócios”, afirma. Os dados disponíveis mostram apenas o cenário atual e não formam uma série histórica. Por isso, segundo Daniela, não é possível afirmar a partir do levantamento se a quantidade de negócios está aumentando ou diminuindo nos últimos anos. O levantamento usa dados de julho de 2026 do Sebrae-SP, a partir de informações da Receita Federal. Por que o Dia do Feirante é comemorado em 25 de agosto? O Dia do Feirante é celebrado em 25 de agosto em referência à primeira feira livre realizada no país. A feira ocorreu em 25 de agosto de 1914, no Largo General Osório, no bairro Santa Efigênia, em São Paulo (SP). *Estagiária sob supervisão de Gabriella Ramos. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região ) Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/08/25/dia-do-feirante-de-geracao-em-geracao-regiao-de-campinas-soma-107-mil-negocios-ligados-as-feiras.ghtml


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