Escondidos nas montanhas: biólogos descobrem 4 novas espécies de peixes em Minas Gerais
26/02/2026
(Foto: Reprodução) Novas espécies de cascudinhos são descritas por pesquisadores
Pesquisadores / divulgação / https://doi.org/10.1111/jfb.70319
Pesquisadores descreveram quatro novas espécies de peixes do gênero Pareiorhina, conhecidos popularmente como cascudinhos, nativos e encontrados especificamente no Brasil. Até o momento, essas espécies só foram registradas em altitudes mínimas de 650 metros.
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Os achados ocorreram nos municípios mineiros de Aiuruoca, São Thomé das Letras, Carmo do Rio Claro e Capitólio — estes últimos próximos à Serra da Canastra.
Segundo o biólogo e autor principal da pesquisa, Pedro Uzeda, as espécies de cascudinhos deste gênero costumam ter uma distribuição geográfica bastante restrita.
Ao longo dos últimos anos, cientistas haviam reportado a presença de uma espécie, a Pareiorhina carrancas, em uma região relativamente extensa na bacia do Rio Grande, em Minas Gerais. Entretanto, ao compararem a morfologia dessas supostas "populações", os pesquisadores perceberam características diferentes entre elas em cada região.
Após análises de DNA, comprovou-se que as espécies tinham diferenças genéticas, reforçando a hipótese de que se tratavam de linhagens similares, porém evolutivamente independentes. Os peixes recém-descobertos foram batizados pelos biólogos como: Pareiorhina aiuruoca, Pareiorhina isabelae, Pareiorhina sofiae e Pareiorhina mystica.
Uma curiosidade interessante envolve a nomeação da última espécie, para a qual foi utilizado o termo “mystica” em homenagem à cidade onde foi encontrada: São Thomé das Letras, famoso destino “místico” do país, conhecido por suas lendas, cachoeiras e construções em pedra quartzito.
(a) Pareiorhina aiuruoca sp. n., CI-UFLA 1851. (b) P. aiuruoca sp. n., parátipo, CI-UFLA 1849. (c) Pareiorhina isabelae sp. n., parátipo, UFRJ 12831. (d) Espécime jovem de P. isabelae sp. n. (não capturado) próximo a uma ninfa de Odonata na localidade-tipo. (e, f) Pareiorhina mystica sp. n., parátipos, UFRJ 14532.
Divulgação / https://doi.org/10.1111/jfb.70319
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Potencial biodiverso
Anteriormente, já houve novas descobertas e descrições de espécies na região, o que chama a atenção para o potencial de biodiversidade local. Com nascente em Minas Gerais, a Bacia do Rio Grande é uma das formadoras do Rio Paraná (ela se junta à bacia do Rio Paranaíba para formar o Paraná).
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Assim, toda a água que escoa pela bacia do Rio Grande segue seu curso, fazendo com que essa área funcione como uma sub-bacia dentro de um sistema hidrográfico maior.
No que se refere a peixes, esses locais são considerados de grande valor e variedade biológica. Ao mesmo tempo, novas pesquisas já estão em andamento:
“Nós já estamos com outras espécies, de outros gêneros, em fase de descrição. Quanto mais os esforços de coleta e pesquisa são direcionados a essa região, mais descobrimos coisas. É algo impressionante!”, afirma Valter Santos, biólogo, professor e um dos autores da descrição.
(a) Córrego do Quilombo, afluente do Rio Aiuruoca, localidade-tipo de Pareiorhina aiuruoca sp. n. (b) Cachoeira do Glicério, riacho sem nome afluente do Ribeirão Itaci, localidade-tipo de Pareiorhina isabelae sp. n. (c) Ribeirão do Lavarejo, afluente do Rio Ingaí, localidade-tipo de Pareiorhina mystica sp. n. (d) Riacho sem nome afluente do Ribeirão do Turvo, localidade-tipo de Pareiorhina sofiae sp. n.
Divulgação / https://doi.org/10.1111/jfb.70319
Dinâmica ecológica e conservação
Conforme os pesquisadores, apenas uma dessas novas espécies, a Pareiorhina aiuruoca, foi encontrada dentro de uma Unidade de Conservação. Por isso, esforços em pesquisa e iniciativas de preservação devem ser ampliados para garantir a proteção desses animais.
Como a região sofre um impacto considerável da expansão urbana e agrícola, os cientistas alegam ser necessária a ampliação dos limites dessas unidades de conservação, ou até mesmo a criação de novas abordagens de manejo para os ecossistemas de água doce.
Por serem espécies restritas a pequenos cursos d’água, intervenções humanas pontuais no local já podem causar um impacto negativo severo.
Novas espécies de cascudinhos são descritas por pesquisadores
Divulgação / https://doi.org/10.1111/jfb.70319
“Uma das espécies descobertas, a Pareiorhina sofiae, já pode estar ameaçada de extinção, mas uma avaliação oficial por órgãos governamentais é necessária para confirmar seu real estado de conservação”, enfatizam os biólogos.
Há ainda muito a se estudar sobre a dinâmica ecológica que essas espécies exercem na região. Os cientistas pretendem entender as relações de parentesco em um contexto amplo, envolvendo mais grupos e suas funções no ambiente. Ainda assim, Pedro Uzeda ressalta a importância já conhecida dos peixes desse gênero:
“De forma geral, cascudos atuam no equilíbrio dos rios por se alimentarem do que chamamos de perifíton, o 'lodo' que cresce sobre o fundo do rio e nas pedras. Dessa maneira, eles controlam o acúmulo de matéria orgânica na água, melhorando a qualidade de água do local.”
Descobertas como essa reforçam a necessidade contínua de fomento à pesquisa no país e evidenciam o quanto a natureza do Brasil ainda precisa ser desvendada e, principalmente, protegida.
“A biodiversidade brasileira é muito rica. Isso é um privilégio para nós, biólogos. Por esse elevado número de espécies, temos um compromisso e um desafio gigantesco em nos desenvolver como humanidade de modo que não ocorra perda de espécies brasileiras”, finaliza Valter Santos.
Leia o artigo original (em inglês): Journal of Fish Biology.
Participaram do trabalho:
Pedro L. C. Uzeda: Laboratório de Ecologia de Peixes, Departamento de Ecologia e Conservação, Universidade Federal de Lavras, Lavras, Brasil.
Luana J. Sartori: Departamento de Biologia, Universidade Federal de Lavras, Lavras, Brasil.
Axel M. Katz: Laboratório de Sistemática e Evolução de Peixes Teleósteos, Instituto de Biologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.
Felipe P. Ottoni: Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Centro de Ciências de Chapadinha, Laboratório de Sistemática e Ecologia de Organismos Aquáticos, Chapadinha, Brasil; e NRF-South African Institute for Aquatic Biodiversity (NRF-SAIAB), Makhanda, África do Sul.
Wilson J. E. M. Costa: Laboratório de Sistemática e Evolução de Peixes Teleósteos, Instituto de Biologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.
Francisco Langeani: Departamento de Ciências Biológicas, UNESP - Universidade Estadual Paulista 'Júlio de Mesquita Filho', São José do Rio Preto, Brasil.
Valter M. Azevedo-Santos: Universidade Federal do Tocantins (UFT), Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade, Ecologia e Conservação, Tocantins, Brasil; Grupo de Ecologia Aquática, Espaço Inovação do Parque de Ciência e Tecnologia Guamá (PCT Guamá), Belém, Brasil; e Centro Universitário Eduvale, São Paulo, Brasil.
*Sob supervisão de Rodrigo Peronti.
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