Estrela-flor e porco-do-mar: seres desconhecidos são achados a 4 mil metros no oceano
18/02/2026
(Foto: Reprodução) Mundo Oculto: 90% das espécies encontradas a 4 km de profundidade podem ser novas
A quatro mil metros abaixo da superfície do Oceano Pacífico, onde a luz do sol é uma memória impossível e a alta pressão ditaria o fim de quase qualquer forma de vida conhecida, a natureza floresce em silêncio. Em uma expedição internacional que durou 160 dias, pesquisadores revelaram ao mundo um "jardim de vidro" habitado por criaturas exóticas: estrelas-serpentes que lembram flores brancas, porcos-do-mar translúcidos e corais solitários que brotam de pedras de metal.
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O cenário desse "novo mundo" é a Zona de Clarion-Clipperton (CCZ), uma vasta planície abissal entre o Havaí e o México.
O estudo, publicado recentemente na revista Nature Ecology & Evolution, traz um dado fascinante e, ao mesmo tempo, alarmante: de cada 10 animais observados pelos cientistas, 9 são espécies completamente desconhecidas pela ciência.
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Estrela-do-mar encontrada em expedição a 4 mil metros de profundidade (estrela-flor)
Natural History Museum/ University of Gothenburg
A urgência sob as ondas
A descoberta ocorre em um momento crítico de colisão entre a preservação ambiental e a economia global. Enquanto o mundo busca metais para a "transição verde" — essenciais para baterias de carros elétricos e painéis solares —, o fundo do mar surge como a próxima fronteira extrativista.
No entanto, o levantamento liderado pela Universidade de Gotemburgo e pelo Museu de História Natural de Londres mostra que a passagem de máquinas de mineração experimental reduziu a abundância de animais em 37% e a diversidade de espécies em 32% nas áreas afetadas.
Aranha-do-mar encontrada em expedição
Natural History Museum/ University of Gothenburg
Vida em câmera lenta
Diferente dos mares agitados que estamos acostumados a ver no Terra da Gente, o abismo é um lugar de paciência extrema. Ali, o alimento é tão escasso que o sedimento no fundo do mar cresce apenas um milésimo de milímetro por ano.
"Trabalho na Zona Clarion-Clipperton há mais de 13 anos e este é, de longe, o maior estudo já realizado. Como a maioria das espécies nunca foi descrita, o DNA foi crucial para entendermos quem vive ali", explica o biólogo marinho Thomas Dahlgren, da Universidade de Gotemburgo.
A escassez dita o ritmo da vida. Enquanto uma amostra de solo no Mar do Norte pode conter 20.000 animais, o mesmo volume de terra no abismo do Pacífico abriga apenas 200 indivíduos.
No entanto, a variedade é estonteante: quase cada animal encontrado pertence a uma linhagem diferente, tornando o ecossistema uma biblioteca genética insubstituível.
Ouriço-do-mar encontrado a 4 mil metros no oceano profundo.
Natural History Museum/ University of Gothenburg
As joias do abismo
Entre as 788 espécies identificadas, algumas se destacam pela beleza sutil e formas quase alienígenas:
Deltocyathus zoemetallicus: Um novo coral solitário que vive fixado diretamente nos nódulos polimetálicos (as "batatas" de metal visadas pela indústria).
Estrela-serpente: Com braços longos e flexíveis, possui um centro que se assemelha a uma flor delicada.
Aranha-do-mar-abissal: Diferente das gigantes de outras regiões, as encontradas nesta expedição medem apenas alguns milímetros, vivendo em um mundo de minúcias.
Porco-do-mar (Sea Pig): Um tipo de pepino-do-mar que "caminha" sobre o sedimento, filtrando a pouca matéria orgânica que cai da superfície.
90% das espécies encontradas são desconhecidas
Natural History Museum/ University of Gothenburg
O custo do progresso
A polêmica reside nos chamados nódulos polimetálicos. Essas rochas ricas em cobalto, níquel e manganês levam milhões de anos para se formar e são, literalmente, a "casa" dessas espécies. Removê-las significa retirar o único ponto de apoio sólido em um oceano de lodo infinito.
Embora o estudo aponte que o impacto foi "menor que o esperado" em alguns pontos técnicos, a recuperação dessas áreas é incerta.
Um pequeno "bristle worm" encontrado
Natural History Museum/ University of Gothenburg
Adrian Glover, pesquisador do Museu de História Natural de Londres, alerta para o perigo de protegermos o que não conhecemos. Atualmente, 30% da área total é protegida, mas, segundo Glover, "praticamente não temos ideia do que vive lá".
O Brasil, ao lado de outras 18 nações, já se posicionou contra a mineração acelerada nessas águas profundas até que os riscos sejam plenamente compreendidos.
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