'Fóssil vivo' de 275 milhões de anos com mandíbula de 'ralador' é descoberto no Brasil

  • 09/03/2026
(Foto: Reprodução)
'Fóssil vivo' de 275 milhões de anos com mandíbula de 'ralador' é descoberto Muito antes das grandes chapadas e do semiárido ganharem a forma que conhecemos, o Nordeste brasileiro era o cenário de uma bacia de rios e lagos calmos, onde a vida testava formas exóticas de sobrevivência. Foi nesse cenário, há cerca de 275 milhões de anos, que habitou uma criatura que a ciência acaba de retirar do silêncio das rochas: o Tanyka amnicola. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp A descoberta, publicada na revista Proceedings of the Royal Society B, revela um animal tão singular que os pesquisadores o apelidaram de "fóssil vivo" de sua própria época. O achado ocorreu na Formação Pedra de Fogo, uma unidade geológica que atravessa estados como Maranhão e Piauí. A identificação da nova espécie foi possível graças à análise de mandíbulas fossilizadas encontradas em leitos de rios em cidades como Pastos Bons (MA), Timon (MA) e Nazária (PI). O que mais impressionou a equipe internacional de paleontólogos foi a anatomia "torcida" do animal, com dentes voltados para fora. Reprodução artítisca do animal ao lado de fóssil encontrado Vitor Silva e Ken Angielczyk, Field Museum Veja mais do Terra da Gente: 'ABRE-TE, SÉSAMO': Conheça o segredo milenar e os benefícios do gergelim TRUQUE ANIMAL: A curiosidade escondida nas aves do filme 'Hamnet'; favorito ao Oscar ALERTA: Toxinas banidas há décadas são achadas em aves marinhas no Brasil 'Engenharia' natural inusitada Diferente da maioria dos vertebrados daquela era, o Tanyka possuía mandíbulas com uma torção acentuada, fazendo com que a superfície de mordida ficasse voltada para os lados em vez de apenas para cima. Após analisarem diversos exemplares, os cientistas confirmaram que o traço era uma característica evolutiva real e não uma deformação fóssil. Mandíbula de Tanyka encontrada no Brasil Ken Angielczyk, Field Museum Na face interna da boca, o animal carregava uma "bateria" de pequenos dentes bulbosos e inchados que formavam uma superfície de trituração muito mais larga que a fileira de dentes principal. Os pesquisadores acreditam que o Tanyka realizava um movimento de raspagem mediolateral contra o céu da boca, funcionando como um verdadeiro "ralador" para processar plantas aquáticas ou pequenos invertebrados. O 'ornitorrinco' do Permiano O Tanyka amnicola é considerado uma relíquia evolutiva porque pertence a um grupo de tetrápodes basais (animais de quatro patas) que se acreditava ter desaparecido muito antes, após um colapso das florestas tropicais no período Carbonífero. Sua sobrevivência no Brasil prova que o antigo supercontinente Gondwana serviu como um refúgio onde linhagens antigas continuaram a evoluir e ocupar novos nichos. Fóssil com dentículos Ken Angielczyk, Field Museum A comparação com o ornitorrinco moderno surge justamente por essa mistura de traços primitivos com adaptações altamente especializadas para a vida nos rios. O nome da espécie faz jus a essa origem: Tanyka vem do Guarani (tañykā), que significa "mandíbula", enquanto amnicola vem do latim para "habitante do rio". "No sentido de que o Tanyka era um membro remanescente da linhagem ancestral, mesmo após a evolução de tetrápodes mais modernos, ele é um pouco parecido com um ornitorrinco", explicou em comiunicado Jason Pardo. Ficha técnica da criatura Representação do Tanyka na pesquisa acadêmica Jason D. Pardo, Claudia A. Marsicano, Roger Smith, Juan Carlos Cisneros, Kenneth D. Angielczyk, Jörg Fröbisch, Christian F. Kammerer, Martha Richter; An aberrant stem tetrapod from the early Permian of Brazil. Proc Biol Sci 1 March 2026; 293 (2066): 20252106. https://doi.org/10.1098/rspb.2025.2106 Os dados detalhados pelo estudo ajudam a montar o retrato de um dos habitantes mais curiosos do nosso passado: Porte: um animal de tamanho moderado, com mandíbulas de cerca de 17 cm, podendo atingir quase 1 metro de comprimento total. Aparência: corpo alongado similar a uma salamandra, com ossos da cabeça apresentando uma escultura em formato de favo de mel. Dieta: provável herbívoro ou consumidor de pequenos invertebrados, sendo o primeiro registro desse tipo de alimentação em sua linhagem. Estilo de Vida: aquático, frequentando desde grandes lagos até áreas de áreas alagadas temporárias. Embora as mandíbulas tragam luz sobre a alimentação e o ambiente da época, o restante do esqueleto do Tanyka ainda não foi localizado, o que mantém parte de sua forma física como um enigma para futuras expedições. A descoberta reforça a importância do Nordeste brasileiro como um dos principais "arquivos" da evolução dos primeiros animais terrestres no mundo. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/03/09/fossil-vivo-de-275-milhoes-de-anos-com-mandibula-de-ralador-e-descoberto-no-brasil.ghtml


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