Guerra entre Irã, EUA e Israel ameaça rota de 500 milhões de aves migratórias; veja

  • 16/03/2026
(Foto: Reprodução)
O Silêncio das Asas: como o conflito Israel-Irã afeta aves da Eurásia Enquanto o mundo acompanha com apreensão o rastro de mísseis e os voos de caças nos céus que marcam a guerra entre os EUA, Israel e o Irã, um perigo silencioso e invisível aumenta a milhares de metros de altitude. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp No pico da migração de primavera de 2026, milhões de aves que cruzam o Vale do Jordão e o deserto do Negev — um dos corredores ecológicos mais importantes do planeta — enfrentam um cenário de guerra que altera instintos milenares e ameaça a sobrevivência de espécies inteiras. Foto de uma cegonha-Branca (Ciconia ciconia ssp. ciconia) em situação de risco tobin_sparling / iNaturalist Veja mais notícias do Terra da Gente: PÓ DA BORBOLETA: Causa cegueira? Ciência revela segredo das escamas que 'bebem a luz' PEIXE-REMO: A ciência por trás da lenda do animal que 'prevê' tragédias ALERTA: Mais de 1,2 mil espécies da fauna brasileira estão ameaçadas de extinção, aponta ICMBio O fúnil biológico sob fogo Israel é considerado o segundo maior "funil" migratório do mundo, ligando a Eurásia à África. Estima-se que mais de 500 milhões de aves atravessem este espaço aéreo anualmente. Contudo, em março de 2026, o cenário sofreu um forte imapcto. O barulho de explosões, a luz intensa de sistemas de defesa aérea como o Iron Dome ("domo de ferro) e a intensa atividade de veículos aéreos não tripulados (VANTs) transformaram uma rota histórica de descanso em uma zona de perigo extremo. Segundo estudo do Prof. Yossi Leshem, do Departamento de Zoologia da Universidade de Tel Aviv, o maior desafio atual não é apenas o risco direto de colisão, mas a desorientação sistêmica. Em suas análises para a plataforma Let Them Migrate in Peace, Leshem enfatiza que a migração é um evento de precisão matemática. Cegonhas-brancas em pleno voo txalibionte / iNaturalist As aves, especialmente grandes planadoras como a Cegonha-branca (Ciconia ciconia) e o Pelicano-branco (Pelecanus onocrotalus), dependem de correntes térmicas ascendentes para economizar energia. Explosões e o calor gerado por atividade militar intensa podem alterar essas térmicas, forçando as aves a um esforço físico para o qual não estão preparadas. Vítimas do estresse e da exaustão Diferente dos humanos, as aves migratórias operam com orçamentos energéticos extremamente rigorosos. Estudos validados entre 2024 e 2026, baseados no monitoramento de Águias-gritadeiras (Clanga pomarina) por GPS, revelaram que estas aves estão realizando desvios significativos para evitar zonas de conflito. Pelicano-Branco (Pelecanus onocrotalus) cristobal_barriga_troncoso / iNaturalist Dados publicados pela Earth.com, analisando o rastreamento de águias que cruzam áreas de conflito, mostram que os animais não apenas mudam a rota, mas alteram a altitude de voo e reduzem as paradas para descanso. Durante o conflito na Ucrânia, águias monitoradas aumentaram suas rotas em média 85 quilômetros. No atual contexto do Oriente Médio, o efeito é similar. "As aves chegam exaustas. O desvio pode parecer pequeno para um avião, mas para uma ave que já atravessou o Saara, 50 ou 100 quilômetros extras podem significar a incapacidade de encontrar um parceiro ou de botar ovos viáveis ao chegar no destino", afirma o relatório técnico da KKL-JNF e da SPNI de março de 2026. O Impacto das luzes e do "jamming" A poluição luminosa e as interferências tecnológicas criam barreiras invisíveis. De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), em seu relatório sobre os efeitos da poluição luminosa em aves migratórias, a iluminação artificial intensa — como a de bombardeios noturnos e sinalizadores — "desorienta as aves que utilizam as estrelas para navegação, levando-as a colidir com infraestruturas ou a voar em círculos até a morte por exaustão". Águia-Real (Aquila chrysaetos) existente também no Irã dhilkey / iNaturalist Além disso, há o fator do GPS. O uso de jamming (interferência de sinal) militar na região, destinado a desviar drones e mísseis, tem um efeito colateral ainda pouco discutido no grande público, mas monitorado por especialistas: a possível interferência na magnetorecepção das aves de rapina, que utilizam campos geomagnéticos para se localizarem. Sem o "norte" biológico, milhafres e águias perdem dias preciosos tentando reencontrar o corredor migratório. O perigo dos "falsos alvos" nos radares Um dado técnico alarmante levantado pela Universidade de Tel Aviv é a dificuldade crescente dos radares de defesa aérea em distinguir seres vivos de ameaças tecnológicas. Durante a atual escalada, houve registros documentados de sistemas de alerta disparados por bandos de cegonhas em formação. A SPNI (Society for the Protection of Nature in Israel) alerta que, em estados de alerta máximo, o risco de "fogo amigo" contra a fauna aumenta. As aves tornam-se alvos não intencionais de sistemas automatizados que interpretam grandes massas em movimento térmico como incursões de drones inimigos. Falcão-Peregrino (Falco peregrinus) também migra para a região grayhairstreak / iNaturalist O efeito cascata e o impacto mundial A morte ou o enfraquecimento dessas aves em solo israelense, libanês ou iraniano tem um efeito cascata que atravessa continentes. As aves de rapina são responsáveis pelo controle de pragas agrícolas na Europa Oriental e Central, enquanto cegonhas e pelicanos desempenham papéis cruciais na polinização e no equilíbrio de zonas úmidas na África. Conforme aponta o Impact Report on Israeli Conservation 2025/2026 da Nature Israel, a perda de conectividade ecológica causada pela guerra pode levar décadas para ser recuperada. "O silêncio das asas" não é apenas uma metáfora para a ausência do canto dos pássaros; é um indicador de um choque ecológico que afetará a agricultura e a biodiversidade de países a milhares de quilômetros da zona de guerra. A ciência e os dados são claros: enquanto as fronteiras políticas são redesenhadas por mísseis e tratados, as fronteiras naturais estão sendo fragmentadas. A guerra moderna no Oriente Médio criou um teto de vidro sobre o Vale do Jordão, onde a sobrevivência agora depende não apenas da biologia, mas de conseguir navegar por entre os destroços de um conflito humano que as aves não podem compreender, mas do qual também são vítimas. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/03/16/guerra-entre-ira-eua-e-israel-ameaca-rota-de-500-milhoes-de-aves-migratorias-veja.ghtml


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